Ele era advogado em uma cidadezinha do interior. Morava com os pais. Era jovem... Na casa dos vinte e poucos anos.
Daí que um dia a conheceu, a mulher com quem viria a casar. Ao contrário dele, ela tinha largado os estudos cedo... Era de família pobre, muitos irmãos pra ajudar a mãe a cuidar.
Dito e feito, casaram. Ela com seus 18 anos e ele com seus 24. Ela: loirinha, olhos castanho-esverdeados, quase da cor de mel. Ele: moreno, olhos escuros, bem escuros.
Passado o tempo, nasce a primeira filha deles. Moreninha, como o pai.
Depois de quatro anos, nasce a segunda e última filha do casal. Loirinha e branquela como a mãe.
Essa última nasceu no oitavo mês da gestação. Com uma deficiência auditiva em um dos ouvidos, devido à rubéola contraída pela sua mãe no segundo mês. Mas era uma criança normal. Ambas eram.
Então, depois de uns anos, e da morte do pai dele, eis que se mudam pra capital. O motivo da mudança? Ele adoeceu. Jovem, trabalhador, determinado... Mas adoeceu. Dos rins.
Já em Natal, ele passa a se submeter ao tratamento de hemodiálise. Três vezes por semana, três horas por dia.
Com essa rotina, ele se vê obrigado a abandonar uma das coisas que mais amava: a carreira de advogado. Chega então aos 30 e poucos anos aposentado. Entregue àquela rotina cansativa. Mas ainda era pai, esposo e filho. Continuou a lutar.
Todos os dias ele ia com sua mãe buscar suas filhas na escola, sempre ela dirigindo e ele no banco ao lado. Jogava bola com a mais nova quase todas as tardes. Brincava com elas. Assistia TV ao lado delas. Todos os dias, ele cumpria suas funções de pai como podia.
Em uma dessas idas à escola buscar a mais nova, há um acidente. Ele acorda já no hospital, com as pernas imobilizadas com gesso, o lábio cortado, o nariz quebrado, o tendão do joelho torcido e cirurgiado, o braço direito engessado e muitos arranhões. Continuou a lutar.
A mãe das pequenas vai buscá-las na escola... A mais nova estranha a ausência do pai.
-Onde papai está mamãe?
Pergunta difícil de se responder, mas ela o faz. E leva a loirinha pra visitar ao pai. E lá ela fica, assustada, olhando o estado dele.
O tempo passa... Mas sequelas ficam. E ele, aos poucos, vai parando de andar. Hoje? Cadeira de rodas. Quem o coloca na cama? Quem ajuda no banho e nas refeições? Quem o ergue? A esposa.
Aquela mulher delicada que ele conheceu agora era seu suporte, pra TUDO.
Os anos passam e as coisas vão piorando. Somando cerca de quatro internações em U.T.I's, muitas, muitas mesmo, internações. Insuficiência cardíaca. Insuficiência renal crônica.
Sua esposa sempre junto a ele. Vivendo 24h em função dele. Tudo para ele, por ele.
Ele tinha sonhos, muitos. Um deles era ver as filhas entrando na faculdade e se formando.
Construindo o futuro delas, garantindo aquilo que ele sabia que não poderia dar a elas. Continuou a lutar.
A mais velha passa no segundo vestibular, pra Jornalismo, depois de ter tentado Direito (queria seguir os passos do pai) e não ter tido sucesso. Quatro anos depois, ela se forma. E ele assiste a tudo. Com lágrimas nos olhos. As lágrimas mais expressivas que já se viu. Com um sorriso de alívio.
Depois foi a vez da mais nova. Ela passa no primeiro vestibular, pra Ciências Sociais. Não satisfeita com o curso, larga-o e presta vestibular no ano seguinte pra Rádio e TV, seguindo o rumo da irmã na área de Comunicação Social. E mais uma vez ela tem sucesso. Só que ainda não viu o sorriso de alívio e as lágrimas do pai. Ainda tem muito chão a trilhar até se formar.
Ele? Agora com infecção generalizada, mais uma vez na U.T.I. Com aparelhos ao redor, sonda, e tudo o mais.
Não se sabe se ele conseguirá sair de mais essa.
Mas de uma coisa todos tem certeza: Ele é um vencedor! E continua lutando!
Ele foi forte quando nenhum outro conseguiria. Ele criou, educou e foi exemplo de vida pra duas, hoje, mulheres.
Ele foi pai, esposo, filho, irmão e tio como pôde. E algo mais que no princípio não esperava: Ele foi exemplo pra muitos que viram sua luta de perto.
E essa história vai ser contada com orgulho a seus netos e pros filhos que eles vierem a ter.
E sua "galega", como ele a chama, se orgulha demais do cara que ele foi e é.
Se você não aguentar estar aqui daqui há uns dois anos e meio, sei que ainda assim me sorrirá, entre lágrimas, de onde estiver, PAI!
Queria poder ter dito o quanto o amo todos os dias. Mas por vergonha e/ou orgulho... Ou simplesmente por frieza, o fiz pouquíssimas vezes. E sempre na forma escrita. Dizer "eu te amo" nunca foi meu ponto forte. Besteira minha. Hoje me arrependo.
Se pudesse voltar no tempo, certamente teria sido mais carinhosa, mais companheira, mais paciente.
Enfim.... Sem mais delongas que sou boba pra chorar.
Ele é O cara e eu o amo mais-que-tudo-nessa-vida!
Como eu já havia dito: “Seu pai é um vencedor”.
ResponderExcluirMe emocionei com a história dele, uma história de luta e superação. Exemplo para muitas pessoas. – E novamente irei dizer que ele onde quer que esteja, se orgulha de você.
=)
Beijos